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ANÁLISE SISTÊMICA DO FILME:
SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA NOITE

Autor: Psicólogo Leandro Oliveira CRP 06/102538
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A história retrata vários temas significativos ao mesmo tempo, sendo todos essenciais para a concepção dos personagens e enredo.  


Inicialmente, podemos notar que Connor, o garoto, encontrava-se numa indefinição de sua vida, “um garoto velho demais para ser uma criança e jovem demais para ser um homem”, já que suas vivências eram muito duras para suportar. Sua mãe, a pessoa que mais amava, sofria por uma doença terminal (câncer) e sua avó materna, uma figura rígida e de pouca intimidade, permanecia presente na vida de ambos nesse momento difícil. Seu pai era ausente. 


De acordo com a teoria sistêmica, há problemas nas fronteiras e subsistemas dessa família. Connor, mesmo sendo um menino, precisou tomar uma postura de cuidador, de acordo com o que conseguia fazer. Devido ao adoecimento de sua mãe, ele a enxergava como alguém fragilizado, demandando proteção e cuidados. Sua avó também mantinha uma postura de cuidados para com a filha, porém, demonstrou um distanciamento da realidade deles. Dessa forma, parecia uma “invasora” a qual gerava em Connor ainda mais preocupação e negação daquela realidade.  


Há inversões na hierarquia da família. Por amor a sua mãe, o filho precisou tornar-se o que o contexto pedia. Segundo as “receitinhas” de Witaker, toda criança deveria ser tratada como criança e não como “pares”. Fazer da criança um companheiro, solicitando-lhe postura de adulto, pode comprometer todo o seu desenvolvimento.

 
No caso de Connor, é evidente que não “sobrou espaço” para ele: todo o adoecimento de sua mãe movimentou a dinâmica da família, não havendo referências suficientes para a constituição de uma singularidade. Connor “gritava por limites”, por exemplos, dentre eles o paterno/ o masculino, e para ser enxergado, mas tudo dentro de um “silêncio ensurdecedor”. Seu pai, uma figura também distante e “divertida” (dentro do contexto da história), aparece para tentar estreitar o laço com o menino nesse momento difícil, porém, ambos não tinham ligação / intimidade um para com o outro. Entre todos os personagens havia problemas de comunicação. Connor conseguia “aparecer” através do seu contato fantasioso com a árvore. 


A árvore se tornou um personagem fundamental, pois fazia Connor transparecer seus sentimentos perante as turbulências as quais estava passando, mesmo com suas desconfianças e críticas iniciais. Com toda a sensibilidade e sabedoria, a árvore transmitia valores que foram plantados em sua vida.  


De acordo com Virginia Satir, a patologia é causada através das comunicações defeituosas, ou da falta dela. É de extrema importância a comunicação no desenvolvimento emocional. A falha no processo de comunicação pode proporcionar um desalinhamento entre o sentir, pensar e agir. Através do diálogo, podemos desenvolver a capacidade de estar em contato com nossos sentimentos (ter uma coerência), e assim, validá-los.  


Dentre vários momentos, ficou evidente a baixa autoestima de Connor, especialmente na cena em que seu pai lhe diz que sua mãe sonhava em fazer faculdade de artes e ele, sem titubear, disse ao pai: “ela não fez a faculdade por estar grávida de mim”. Sua falta de referência, empobrecimento de autoimagem, baixa autoestima, alta necessidade de ter limite, entre outras coisas, fazia com que ele precisasse, pelo menos, ser visto pelos valentões da escola e, assim, apanhar deles. Mesmo com a dor dos golpes sofridos, Connor ainda se sentia visto, notado por alguém e isso era menos doloroso do que ser invisível.  


A árvore lhe trouxe muitos ensinamentos preciosos, dentre eles, que todos nós somos tudo ao mesmo tempo, ou seja, vilão e mocinho. De acordo com Witaker, dentro do pensamento sistêmico, cada um tem sua verdade. Precisamos nos libertar da dicotomia, pois a vida não é composta por apenas dois polos (bom x mau). Outros valores deixados pela árvore foram: não deixar de acreditar naquilo que nos faz sentido e identificar a dor de sentir-se invisível. 


Durante toda a história, os personagens pareciam conviver com um silêncio subentendido por todos (a morte da mãe), sendo carregado através de um movimento de medo e angústia (um tabu). A avó permanecia rígida e critica na postura com sua filha, tomando a frente daquela realidade e dominando o controle. Aliás, ela também demonstrava problemas na comunicação. Sua postura rígida e narcisista escondia o sofrimento de perder uma filha e seus cuidados eram a maneira a qual ela conseguia para manifestar seu sentimento em relação a filha. Connor silenciava sentimentos diversos e intensos e, ao ser “estimulado” pela árvore, manifestou toda sua agressividade reprimida e destruiu a sala da sua avó, que simbolizava todo o controle, o esperado, o tradicional, o “certo” (como o relógio de sua bisavó, o único que marcava a hora correta). Afinal, sua vida estava sendo destruída aos poucos também, mas, ainda assim, não obteve nenhum retorno punitivo, limite ou “lição” que tanto esperava/ precisava.  


Sua mãe era a figura que conseguia traduzir os sentimentos e também entender o que todos queriam dizer, tendo muita sensibilidade. Era uma personagem central que ”unia a todos os outros”, que carregava toda a dinâmica familiar, o que pôde tê-la deixado vulnerável durante sua trajetória de vida. Ela é o que “Connor e sua avó tinham em comum”. Sinalizou a Conner que poderia se comunicar do jeito que conseguia e, mesmo que fosse destruindo tudo, ela o entenderia.  


As fantasias e histórias que a árvore contava era uma forma de mostrar a vida para Connor. Com o tempo, ele foi entendendo que tudo na vida é um movimento, um “vai e vem” eterno e que não há certo ou errado. Ao relatar seu próprio conto/sonho, o mesmo dizia que queria que aquele sofrimento acabasse, por não aguentar viver tamanha dor, que sempre soube que ela não iria suportar. Uma parte sua queria o fim, mesmo que perdesse sua mãe, para conseguir cessar sua dor de estar nesse processo.  


Ao final da história, Connor se aproxima de sua mãe e consegue verbalizar aquilo que sempre quis dizer a ela, carregado de muita dor e sensibilidade. Sua mãe não resiste e parte durante um forte abraço entre ambos. Com muita dor e angústia, Connor se aproxima da avó e ambos permitem uma aproximação e uma forma de haver um canal de comunicação afetiva.   


A história é repleta de significados, ensinamentos e sensibilidade. A lição que podemos tirar são várias, especialmente a de que nada é definido ou intacto: tudo muda, o que é pode “não ser” ou “vir a ser”. Todos os sentimentos são humanos e partem de uma integridade do ser. Precisamos ser coerentes com nós mesmos, no sentir pensar e agir. É de grande necessidade estarmos bem com o nosso “eu” interior para haver um movimento saudável de vida, uma comunicação real e afetiva, antes que seja tarde demais ou que paguemos por isso. Sempre teremos a oportunidade de tentar, ajustar e evoluir no percorrer da vida.   

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

SATIR, Virginia. Terapia do grupo familiar; tradução de Achilles Nolli. Rio de Janeiro: F. Alves, 1993. 
WHITAKER, Carl. & Bumberry, W. M. Dançando com a família. Uma abordagem simbólico-experiencial. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

Leandro S. de Oliveira