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ANÁLISE SISTÊMICA DO FILME:
PODEROSA AFRODITE

Autor: Psicólogo Leandro Oliveira CRP 06/102538
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Poderosa Afrodite inicialmente retrata o relacionamento de um casal onde a esposa demonstra ter uma maior autonomia e poder de decisão, enquanto o marido detém uma postura mais passiva. 

No filme, Amanda, a esposa, decide adotar uma criança, pois o processo de gravidez iria atrapalhar sua carreira, enquanto Lenny, o marido, não consegue convencê-la do oposto. Dessa forma, aceita a proposta da esposa e o casal acaba adotando um menino. Curiosamente, Lenny, que anteriormente discordara do processo de adoção, se encanta com a criança. 

De acordo com o olhar sistêmico, a adoção da criança funcionaria como uma maneira de estabelecer um equilíbrio no funcionamento do casal e, consequentemente, na concepção da família de acordo com seus valores pessoais, gerando assim um maior comprometimento entre ambos, logo que, suas realidades eram muito opostas. 

Dentro da realidade desta família, a mãe se mantinha distante, mais aproximada do trabalho e o pai demonstrara mais intimidade e afeto pelo filho. Ao perceber que o menino tinha uma inteligência avançada, Lenny despertou para um interesse em de saber de “onde teria vindo (geneticamente) tanta sabedoria” e foi buscar mais informações da família biológica do filho.

Com o discurso de que “o seu filho mais tarde, provavelmente, poderá querer saber quem é sua mãe”, Lenny passou a ter comportamentos “fora de seus valores”, como: a ousadia de pegar documentos que não poderia (para realizar investigação), fazer telefonemas escondidos, se aproximar do mundo da prostituição e até “marcar” encontro com uma prostituta, a qual seria a mãe biológica de seu filho.

A partir desse encontro inusitado em diante, Lenny começou a ter outra conduta com as coisas da vida e assumir posturas fora de seus padrões. 

Lenny começou a se aproximar da realidade de Linda Ash (a mãe biológica do menino), à princípio com uma postura paterna, mostrando que ela poderia ter outra maneira de vida, menos exposta e arriscada.

Seguindo a análise sistêmica, Lenny demonstrara exercer uma postura paternalista nas relações com as mulheres da história e provavelmente mantinha essa essência com a esposa Amanda, mais jovem e “cheia de energia/ de vida”.  Consequentemente, com Linda Ash também. Lenny, desta maneira, deve ter aprendido no decorrer de sua vida, provavelmente desde sua família de origem, que a maneira de vivenciar um relacionamento amoroso se realiza de forma paternalista e a diferença de idade pode estar inerente as suas escolhas de relacionamento, facilitando o processo do funcionamento desse sistema.

Dentro deste “novo mundo”, Lenny tentou exercer o controle sob a vida de Linda Ash (sendo um pai controlador) e desenhou sua nova vida na tentativa de ajudá-la. Durante toda a trama, o coro grego narrara toda sua trajetória de valores, deixando a história ainda mais envolvente e, até mesmo, engraçada.

Sem êxito na tentativa de mudar a vida de Linda, Lenny se frustra e, ao mesmo tempo, descobre que Amanda o está traindo com um colega de trabalho. A distância entre ambos ainda é uma realidade, mesmo com a presença do filho. Ambos decidem de esperar.

No processo de separação os personagens passam a viver uma realidade muito diferente da comum. Amanda consegue ter liberdade para ter relação com seu colega assim como Lenny teve experiência sexual com Linda. Porém, mesmo assim, um sente a falta do outro.

Na dinâmica familiar existem maneiras de estabelecer o padrão de conduta dos membros que a compõe. O processo de homeostase se faz da maneira que aquela realidade funciona e se estabiliza. No caso dos personagens, estava estabelecida a forma que todos funcionavam, sendo que Amanda tinha seu papel definido, assim como Lenny e o filho. A partir do momento que há uma mudança nessa homeostase, todos são atingidos, ao ponto de haver desconforto e dificuldades de adaptação da nova realidade, mesmo com uma dinâmica de vida anterior desfavorável/ disfuncional.

Ficou claro o incômodo de Amanda e Lenny perante a vida “livre” e ambos sentiram falta um do outro (do sistema de vida estabelecido), logo que, é através do casamento deles que Amanda consegue “sustentar” o papel de mulher decidida, jovem, ousada e que arrisca. Já Lenny consegue manter o papel paterno, que cuida e consegue exercer seu controle perante seus olhos. 

A participação de Linda Ash na vida de Lenny foi fundamental para lhe dar amplitude na vida, assim como para a vida dela mesma, o que, de uma certa forma, a inclinou para uma outra realidade mais funcional, como um casamento, um emprego menos arriscado e até um novo filho (deles).

O filme é uma comida leve e inteligente. Apresenta que temos tendências a estabelecer dinâmicas de vida para funcionarmos dentro dela, e, mesmo com frustrações e desencontros, a força do sistema é grandiosa. A mudança na conduta, dentro de uma realidade estabelecida, torna-se algo que não é simples. Além de termos tudo definido, há critérios de valores pessoais, crenças e aspectos emocionais que nos vinculam ao que mantemos em nossas vidas. Para o processo de qualquer mudança, requer estrutura, força e coragem de criar e lidar com o novo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOSCOLO, L., CECCHIN, G. HOFFMAN, L., A Terapia Familiar Sistêmica de Milão – Ed. Artes Médicas – 1993 – Porto Alegre 
PAPP, Peggy. O Processo de Mudança, Ed. Artes Médicas – 1992 – Porto Alegre.

Leandro S. de Oliveira