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ANÁLISE SISTÊMICA DO FILME:
PARENTE É SERPENTE

Autor: Psicólogo Leandro Oliveira CRP 06/102538
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O filme “Parente é Serpente” aborda os relacionamentos de uma família italiana tradicional, onde os parentes comparecem à casa da matriarca da família para uma reunião de natal. Dentre eles há: a mãe e o pai (idoso e donos da casa), seus quatro filhos (sendo duas mulheres casadas, um filho casado e outro solteiro), seus respectivos maridos e esposa, além de dois netos (um menino ainda criança e uma adolescente). 
 
O encontro se iniciou com muito entusiasmo perante os irmãos e parentes. A agitação da casa contagiava a todos que ali estavam, envolvidos com os preparativos e tradições de natal. 
 
Por ser uma família tradicional, toda a dinâmica familiar já era compreendia e Sabida por todos os membros, assim como as datas comemorativas e encontros. O “desenho da família” abordada na história mostrava-se estruturado de uma maneira concreta, onde cada membro precisava manter-se fiel ao papel que lhe foi cabido, não aparecendo individualidades. De acordo com Maurizio Andolfi, o sistema familiar é ativo e em constante transformação. Há a necessidade de diferenciação entre os membros e a expressão de cada indivíduo, ou seja, a singularidade. 
 
Cada parente que compareceu na reunião já desenvolveu sua vida e vêm para encontrar seus pais. A família tenta esconder seus interesses, pois cada um tem sua vida estabelecida conforme suas necessidades e, na história, esses aspectos precisavam ser escondidos, pois iriam contra as expectativas pré determinadas pela família.
 
Podemos observar tal situação na cena em que a mãe fala para seu filho solteiro: “Filho, quero que me prometa uma coisa... quero ver você casado com uma belíssima mulher”. O filho responde: “mas eu sou single... “e a mãe replica: “mas quando ficar velho... quem vai cuidar de você? ”. Segundo a abordagem sistêmica e seus ensinamentos da Escola de Roma, podemos notar que as famílias têm regras e quem “sair delas” pode estar traindo a tradição familiar, como se não pertencesse mais a família. Uma das funções da terapia familiar é redefinir novas regras familiares, ajudar as famílias que não conseguem construir novas regras. 

Os membros da família conseguiram ocultar seus interesses até o momento em que a matriarca da família sugere, dentro de um contexto de chantagem emocional, que ela e o marido precisarão de um local futuramente para morar, sendo na casa de um dos filhos. À partir desse momento, a realidade de cada um começa a se desvelar conforme suas condições. Expressam seus interesses individuais sem abrir mão deles, tampouco  de seus egoísmos. De acordo com Andolfi, é necessário favorecer a individuação dentro do contexto familiar. O crescimento do ser humano é necessário e cada um é responsável pelas mudanças dos paradigmas da família. No caso do filme, cada membro escondeu esse “eu” real e eternizou papéis estabelecidos pelo sistema, gerando todo esse emaranhado. 

Agora com todos expostos, podemos notar temas como infidelidade, homossexualidade, sofrimentos, frustração por não gerar filhos, preocupação com aparência, inveja, problemas com compulsão alimentar, interesses financeiros, dentre milhares de coisas que podem acontecer em qualquer família. E ainda assim, com tudo
desvelado, uma das filhas relata: “o que irão pensar da gente se colocarmos num asilo, tendo quatro filhos? O que vão falar da gente?”. 

 
Perante toda situação altamente aflitiva para todos, depois que cada um explicou todos os motivos de não poderem ficar com os pais, de maneira velada chegaram a uma trágica conclusão e assim resolverem o problema de vez. Depois de noticiarem problemas de explosão com aparelhos de aquecer, os filhos resolveram comprar para os pais e tal tragédia aconteceu e, assim, mantiveram suas dinâmicas de vida. 

O filme aborda a realidade de várias famílias e torna-se evidente a importância da individualidade de cada um dentro do contexto familiar. Cada pessoa é singular e possui um universo dentro de si, precisando ser vista e respeitada, assim como todos os membros da família. O contexto familiar do filme é retratado, incialmente, dentro dos paradigmas aceitáveis daquela cultura, onde todos precisavam reproduzir uma postura definida e, perante tal possibilidade de mudança, uma catástrofe veio à tona, típico de famílias rígidas. O trágico final pode representar a maneira que eles conseguem lidar com as demandas da vida, assim como o fizeram durante quase toda a trama. A forma que encontraram a resolução, provavelmente, os manterão dentro do mesmo modelo de vida, reverberando essa cisão entre o aceitável e a realidade oculta, prisioneiros das tradições 
sufocantes, mas necessárias, e da liberdade enjaulada.  

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1. Por Trás da Máscara Familiar Maurizio Andolfi – Ed. Artes Médicas

2. A Terapia Familiar Maurizio Andolfi – Ed. Artes Médicas 

3. Por Favor, Ajude-me com esta Família Maurizio Andolfi – Ed. Artes Médicas

Leandro S. de Oliveira