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ANÁLISE SISTÊMICA DO FILME:
COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE

Autor: Psicólogo Leandro Oliveira CRP 06/102538
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O Filme “Como água para chocolate” aborda diversas dinâmicas familiares, dentre elas, a da herança transgeracional. O contexto familiar seguia as tradições mantidas por outras gerações, pela qual pregava que toda filha menor / mais jovem seria a responsável por tomar conta da mãe até a morte.

Dentro desse cenário, nasceu a jovem Tita, filha predestinada a ser a cuidadora de sua mãe, se abstendo de suas próprias escolhas de vida. No início da história, torna-se evidente pela cena em que Nacha, a personagem cozinheira que lhe representou o papel materno, diz para Tita ainda bebê (logo após a morte do pai): “Você vai crescer bem e muito linda, o primeiro que te encontrar vai querer casar-se contigo”. Sua mãe contesta prontamente: “Não volte a repetir isso! Tita nunca se casará, por ser a menor das minhas filhas, está destinada a cuidar de mim, até eu morrer”. De acordo com os ensinamentos de Murray Bowen, os laços transgeracionais são inconscientes e definidos por projeções que fazemos. Esses laços influenciam no nível de diferenciação emocional dos outros indivíduos daquele sistema. No caso do filme, a jovem Tita já nasceu com o destino traçado por outros, dentro de uma aglutinação, desrespeitando qualquer movimento singular e particularidades, dificultando, dessa forma, o processo de diferenciação daquele sistema familiar.

Tita cresceu dentro da cozinha e desenvolveu seus dotes culinários com a ajuda de Nacha. Dentro da cozinha, encontrou uma maneira de expressar seus sentimentos e de crescer. Quando se tornou um pouco mais velha, se apaixonou por Pedro, assim como ele também. O rapaz decidiu pedir sua mão em casamento para a mãe e sua mãe, como esperado, negou bravamente reproduzindo o mesmo ensinamento: “Tita não se casará, ela tomará conta de mim”. Para ficar perto de Tita, Pedro aceitou casar-se com uma de suas irmãs ao invés dela.

A família apresentava um padrão rígido, onde cada membro reproduzia o que sabia, assim seguindo a tradição familiar. Segundo a teoria Boweniana, é essencial conduzir os membros da família a um grau maior de diferenciação. Desenvolver autocontrole, a auto-observação, entender melhor os fundamentos do sistema emocional, expressar opiniões e pensamentos faz parte da construção do eu-singular. Quando temos a liberdade de escolha, compreensão do diferente e respeito pelo próximo, desenvolvemos uma vida mais saudável.

Elena (mãe de Tita) apresentava-se uma figura autoritária e dominadora e suas filhas demonstravam respeito, encoberto por medo, sensação de rejeição e muita repressão. A família era composta por fronteiras rígidas, permitindo pouco contato com o sistema externo. De acordo com a teoria sistêmica, famílias com fronteira rígida é mais restritiva, limita a proximidade, a comunicação e quando acontece de “sair da fronteira”, a pessoa tende a ir para o extremo oposto. Como no caso do filme, a filha Gertrudes fugiu nua com um homem qualquer e depois de um tempo a família foi informada que a mesma estava vivendo em um bordel. Com a fuga, Gertrudes quebra as regras impostas pela mãe e vai viver sua sexualidade sem proibições, assim como usar roupas diferentes das tradicionais que costumava vestir-se.

Dentre muitos aspectos importantes do filme, é necessário ressaltar a morte de Roberto, o filho de Paulo e Rousaura (irmã de Tita). A personagem assumiu o papel de ama-de-leite do menino, representando assim o papel de mãe de um filho do homem que amava. Ao notar esse contexto, Elena (sua mãe) enviou o casal (Paulo e Rosaura) para outra cidade. O menino não se acostumou com o alimento e morreu. Após a morte do menino, Tita se rebelou em relação a sua mãe, a culpou pela morte do menino e passa por um forte quadro de transtorno emocional. Sua mãe, a considerando “louca”, a enviou para um tratamento em outra cidade. Tita se recupera da depressão e recebe proposta de casar-se com o médico. À princípio aceita e diz não querer mais voltar para a casa da mãe. Logo após, Tita recebe um comunicado em relação a morte de sua mãe. Diante ao corpo de sua mãe, Tita abre a caixa onde sua mãe colocava seus pertences e descobriu algumas coisas que explicavam as amarguras de seu casamento, assim como a filha Gerturdes, fora do casamento.

Assim como Tita, seus pais também passaram por vivências que foram desenhando suas vidas dessa forma. De acordo com a escola Transgeracional, a família nuclear tem um funcionamento emocional próprio, todavia, esse funcionamento é determinado e influenciado pela forma de funcionamento das respectivas famílias de origem, tanto com relação às gerações passadas, quando às gerações futuras.

Rosaura da a luz para uma menina, filha de Paulo, e deseja lhe dar o mesmo nome de Tita. A mesma nega e diz: “Coloque o nome de Esperança”. Rosaura reproduz a mesma fala de sua mãe: ”como apenas terei ela e é menina, ela tomará conta de mim”. Tita nega essa tradição e diz que aquilo acabará nela. Perante àquela realidade, Tita e Paulo vivam um romance com distância, mas com muito envolvimento emocional.

Em forma de “espírito” ou alucinação, sua mãe aparecia para lhe condenar o que estava fazendo e que ela estava desonrando a família, ferindo todos os ensinamentos da tradição. Com muita coragem, Tita expressa suas verdades dando um fim para àquela consciência implementada e perturbadora, dando-se conta de que não estava gravida de Paulo: era gravidez psicológica.

Ao passar do tempo, Rosaura estava cada vez mais parecida com sua mãe, tanto na forma de agir quanto em vestimentas. Tita, mesmo sendo predestinada a ser a cuidadora e/ou a ser igual sua mãe, tentou tomar um rumo diferente. De acordo com Bowen, a pessoa diferenciada é capaz de equilibrar pensamento e sentimento, lhe permitindo contato íntimo com os outros, sem ser reflexivamente moldadas por eles.

Com o passar do tempo, Rousara foi demonstrando fraquezas e, por problemas gástricos, acabou falecendo, já que não engolia e não digeria o amor entre seu marido e sua irmã. A filha Esperança ficou aos cuidados de Tita. Tita, finalmente, poderia estar com o seu grande amor. Ao terem sua primeira noite de amor livre, sem a preocupação das tradições e leis familiares, Pedro tem um enfarte e morre em seus braços. Tita, perante tal situação, engole fósforos e se entrega à morte junto a seu amado.

O filme retrata como é difícil se desligar do que já vem estabelecido através das gerações. Várias situações foram acontecendo as quais foram determinando o trajeto de cada história, como a “loucura” de Tita para se distanciar de sua mãe, por conta da morte do menino. A morte da mãe quando Tita decidiu se casar, a morte de Rosaura perante a realidade do amor de Tita e Pedro e a tragédia amorosa no final, como se não houvesse a “permissão” e/ou “liberação” para acontecer diante de todo aquele sistema transgeracional traçado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOWEN, Murray. Terapia Familiar na Prática Clínica. Bíb. de Psic. Descleé de Brourr, 1989.

FOLEY, Vincent. Introdução à Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990

Leandro S. de Oliveira