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ANÁLISE SISTÊMICA E CONSTRUTIVISTA DO FILME:
COLCHA DE RETALHOS

Autor: Psicólogo Leandro Oliveira CRP 06/102538
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Com muita sensibilidade e delicadeza, o filme “Colcha de Retalhos” apresenta histórias de mulheres que falam de amor, cada uma de sua maneira e ponto de vista. 


A jovem Finn resolveu passar uns tempos na casa de sua avó e tia-avó com a finalidade de pensar melhor a respeito de sua vida, de seu relacionamento e aproveitar para terminar sua tese de mestrado. A casa de sua avó a remetia às memórias de infância, entre novelos, fios, ensinamentos de vida e a arte da costura. 


Na casa de suas avós havia senhoras que se encontravam para costurar e desenvolver novas artes e conversações. Cada uma delas “tecia sua vida” expondo no desenho suas histórias, carregadas de valor e afeto. De acordo com a teoria construtivista, cada um possui uma verdade, o mundo que construímos é o mundo de experiências, conforme nascemos vamos experienciando este mundo e, assim, criando a nossa realidade. 


No decorrer do filme, podemos observar várias histórias de mulheres que sofreram por amor e percorreram através de valores adquiridos a cada momento. A colcha de retalho, feita por histórias, era onde “residia o amor” de cada uma das senhoras. Todo o modelo, cores escolhidas, formatos de desenhos e maneira de costura, expressava um sentimento profundo e verdadeiro. Segundo o construtivismo, o homem se comporta de acordo com suas descrições. Nós nos descrevemos como somos de acordo com vivencias ocorridas em fases anteriores. Dentre todas as histórias relatadas, podemos pontuar algumas descrições, dinâmicas e valores marcantes que reverberaram, também, em outras gerações. 


Em uma das cenas, a história da mergulhadora, mostrou o quanto a condução de sua dinâmica de vida a fez se afastar de si própria, precisando assumir o papel de esposa e mãe, deixando de lado, assim, sua singularidade e essência. O nadar simbolizava sua liberdade, sua conexão com seu “eu” mais intimo. Sua “ousadia” inicial ao lidar com um admirador foi afogada pela tradição de casamento, reforçado por sua mãe e sociedade. Tornou-se a esposa e mãe de três filhos, com o marido ausente. Uma das filhas, a mais velha, relatou a ela: “Eu quero ir para a faculdade”, e ela responde: “Uma garota não precisa ir para a faculdade, você pode se casar,... Nem sempre conseguimos o que queremos”. Sua “fonte” de referencia (e sabedoria) é a própria vida, através de seu percurso que foi “costurado” seu histórico, apenas conseguimos fornecer ao outro àquilo que temos, gerando valores similares para sua filha, assim como recebeu de sua mãe. 


A história da “mulher de artista” apresentou uma realidade muito comum, porém velada, pela qual a traição era “compreendida” pelo fato do marido ser um artista, já que artistas “são viscerais, eternos apaixonados, impulsivos e infiéis”. Perante essa realidade, sua esposa se mantinha em uma relação insegura. A imprevisibilidade (infidelidade) de seu marido a fez decidir terminar a relação e o mesmo dizia: “Sim... você deve encontrar outra pessoa, mas se você me deixar eu morro”. Nessa fala temos um exemplo de duplo vínculo, que significa um dilema da comunicação onde indivíduo recebe duas ou mais mensagens conflitantes, onde uma nega a outra, o que pode acarretar transtorno e confusão entre o subsistema conjugal e, consequentemente, parental.
 

O filme relata não apenas histórias de amor entre homem e mulher, mas também entre mãe e filha. Uma das personagens relata que sua trajetória (sua verdade) não era em buscar um amor conjugal e sim encontrar o amor de sua filha. Assim como outra personagem que teve uma história de romance com o marido de outra senhora do grupo, as irmãs que também relatavam a história de infidelidade, entre outras histórias. A teoria construtivista aponta que possuímos descrições pessoais que nos faz construir uma realidade interna e, dependendo da maneira como nos descrevemos, podemos nos basear em problemas que criamos e, dessa forma, seremos nós mesmos que encontraremos a maneira de resolvê-los, nos permitindo assim a desenvolver maior viabilidade e capacidades de viver. 


A jovem Finn ouviu todas as histórias das senhoras e, com isso, costurou dentro de si, sua própria “colcha de valores”. Ao conversar com sua mãe, a mesma relatou à jovem que iria se casar novamente com seu pai, a mesma disse: “Você me disse a vida toda que o papai era um calhorda. Eu cresci com você me dizendo que o casamento era uma besteira. Compromissos para vida toda eram impossíveis de cumprir”. De acordo com o olhar construtivista, os valores construídos pela criação são raízes que nos influenciam durante toda a vida e nos faz construir nosso próprio mundo. Nossas verdades e nosso olhar podem ser reajustados no caminhar de cada fase. Porém, no olhar de um filho e dentro do contexto do filme, esse paradoxo pode gerar uma sensação de descrença, esvaziamento de valores e confusão mental. Isso fica claro com a fala de Finn para sua mãe: “Você fez de mim uma maluca”.


Ao escutar todas as histórias das senhoras e a realidade de sua mãe, a jovem tirou algumas conclusões a respeito de sua própria história. A vida nos apresenta tentações, inseguranças, sensação de segurança e milhares de outras coisas. As vezes o que parece seguro não é, como seu trabalho de mestrado, que preferiu fazer na maquina de escrever pois não o queria perder, logo que não confiava em computadores, afinal ele poderia ser “apagado” do sistema; todavia ela não contava que o vento, que soprou e espalhou todas as folhas datilografadas do seu mestrado, era tão imprevisível (ou mais) que o computador. Nesse momento, sua avó disse: “Acha mais fácil começar com outra coisa? Que bom ser assim... desprendida das coisas”. Um dos maiores ensinamentos que apontavam a decisão de seu relacionamento. 


Apesar do episódio da tentação e traição, a jovem decidiu permanecer com seu parceiro. Ela aprendeu que não há uma garantia e a contradição de sua mãe era, também, sua própria contradição. Passar por algumas tentações podem influenciar ou até mudar o percurso de uma história. Não há regras para seguir na vida, precisamos ter coragem para seguirmos guiados pelo sentido e pelo instinto, assim como os exemplos dados pelas senhoras que descreviam e imprimiam, a cada retalho, a imagem da essência de suas vidas, que, por mais que não pudessem mais exercê-las como gostariam, ainda pulsava a cada ponto feito em suas costuras.   

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

MATURANA, Humberto. VARELA, Franscisco. A Árvore do Conhecimento - Ed. Psi – 1987. 
NEIMEYER, Robert A. e MAHONEY, Michael J. Construtivismo em Psicoterapia. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. 
NICHOLS, Paul.; SCHWARTZ, Robert. Terapia familiar: conceitos e métodos. 7ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

Leandro S. de Oliveira