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ANÁLISE SISTÊMICA DO FILME:
A VIDA É BELA

Autor: Psicólogo Leandro Oliveira CRP 06/102538
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O filme “A vida é bela” retrata a história de um homem judeu apaixonado pela vida, chamado Guido, o qual encontra a mulher dos seus sonhos: a professora Dora. Porém, a moça já estava comprometida com outro homem, mas, para Guido ainda havia esperança. 
 

Guido enxergava a vida com cores e entusiasmo, sendo este comportamento sentido por Dora. O rapaz queria saber alguma maneira para conquistá-la e, nesse momento, ela relata à respeito de seu pai: “Papai era capaz de me levar a fazer qualquer coisa. Ele me entendia, sabia como me tratar. E eu caia como uma fruta madura. Dizia 
sempre sim. Abrir para o sim. Tem a chave certa”. De acordo com a teoria sistêmica trasngeracional, nossas escolhas conjugais não acontecem “aleatoriamente”, pois têm relação com nossa história de vida, nossas crenças, méritos e obrigações que deixamos de cumprir na nossa família de origem. 


Dora mantinha uma postura passiva e submissa, o que era comum entre as moças daquela época. Sua mãe apresentava uma postura de domínio e rigorosidade. Podemos notar na cena em que a mãe de Dora diz para sua filha, que se encontrava deitada na cama sem coragem de ir à cerimonia de seu próprio noivado: “Se você não se levantar imediatamente, juro pela memória de seu pai que não falo mais com você pelo resto da vida”, e a moça levanta contra a sua vontade. Segundo a teoria sistêmica, é notável, dentro desse diálogo, o conceito do ‘trama invisível de lealdade’, pois sua filha, mesmo não querendo oficializar o compromisso com o noivo, precisava cumprir as obrigações éticas de seu sistema familiar: a lealdade funcionando, nesse caso, como um regulador de culpa. 


Com toda sua alegria de viver e o seu charme peculiar, Guido acabou conquistando a sua amada e fazendo com que ela fugisse com ele, quebrando todo aquele contexto programado para a vida de Dora. De acordo com a teoria sistêmica, famílias com fronteira rígida são mais restritivas, limitam a proximidade, bem como a comunicação e, quando acontece de “sair da fronteira”, a pessoa tende a ir para o extremo oposto, como no caso do filme. 

 

Algum tempo depois nasce Giosué e tudo corria bem para aquela família que mal notava o cenário de Guerra que iria acontecer. No entanto, no dia em que Guido fazia os preparativos para a festa de aniversário do seu filho, os alemães o levaram para um campo de concentração e Giosué foi levado também. Dora, apesar de não ser judia, exige que a levassem com a sua família, o que deixou Guido completamente devastado. 
 

De forma a proteger o filho da realidade que estava acontecendo, Guido diz ao seu filho que eles estavam de férias e tudo aquilo fazia parte de um grande jogo, que precisavam arrecadar 1000 pontos para ganhar um tanque de guerra real e ir embora. Desta forma, Guido teria que completar várias “tarefas” e, assim, ganhar pontos. 
 

Perante todo aquele contexto avassalador, Guido age dentro de um movimento de amor, tentando priorizar a saúde mental de seu filho, sacrificando sua própria. De maneira engenhosa, encontrou métodos para que o garoto não percebesse o que acontecia ali, usando a criatividade da criança para convencê-la de que estava segura e apenas brincando. Passando por vários momentos difíceis e de grande preocupação, Guido fazia de tudo para entrar em contato com sua esposa e não transparecer a verdade ao menino, sempre com um sorriso no rosto. Ao tentar fugir, infelizmente, não sobrevive, fazendo de tudo para proteger o menino que acabou sobrevivendo, acreditando que ganhou o tanque de guerra e encontrando sua mãe. 


Um filme que fala muitas coisas, dentre elas: amor, família, cuidado, proteção e o modo de enxergar as coisas da vida. Guido tentou minimizar qualquer ferida emocional que seu filho poderia carregar daquela fase de sua infância. Com toda certeza, Giousué recordará de seu pai com amor e força, pois através dessa dinâmica constituída de emoções diversas e de incertezas, o menino ganhou, e não apenas um “tanque de 
guerra”, mas uma forma de enxergar e encarar o mundo que ninguém poderá tirar mais, 
pois seu pai plantou essa maneira de ser, reverberando em raízes do seu próprio eu.     

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOWEN, Murray. Terapia Familiar na Prática Clínica. Bíb. de Psic. Descleé de Brourr, 1989. 
FOLEY, Vincent. Introdução à Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990

Leandro S. de Oliveira